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Avanços tecnológicos na medicina

David Sena

David Sena

Cirurgião Plástico
Autor do livro “O que você precisa saber sobre Cirurgia Plástica”
CEO GestãoDS
Investidor-anjo em health tech
David Sena

Como a inteligência artificial é muito mais que uma revolução tecnológica para a medicina.

1. Quando as máquinas superam o homem

The real problem is not whether machines think but whether men do. – B. F. Skinner

Em 1985, enquanto Ayrton Senna conquistava sua primeira vitória na Fórmula I a bordo de sua lendária Lotus preta no GP de Portugal. O russo Garry Kasparov tornava-se o jogador mais novo a se tornar campeão mundial de xadrez, com apenas 22 anos.

Por isso, por muitos,  ele ainda é considerado até hoje o maior enxadrista de todos os tempos. No entanto, contrariando os que o comparam com o americano, posteriormente naturalizado islandês, Bobby Fischer.

Mas, o que é mais curioso na história de Kasparov é seu pioneirismo e disposição em jogar uma partida contra um computador.

Em 1997, o enxadrista russo perdeu a partida para o Deep Blue da IBM. Esse foi o momento em que os Estados Unidos conseguiu iniciar a maestria da demonstração de seu poder tecnológico sobre a Rússia.

A pergunta que surge é como Kasparov chegou nessa partida?

Tudo começou em 1996 quando, em uma primeira partida, o Deep Blue da IBM perdeu para Kasparov, por um placar final de 4 vitórias e 2 empates. O enxadrista se mostrava exemplar frente à máquina, mas convicto que ele provavelmente seria o último humano a ser capaz de vencer uma máquina. Logo,  prevendo a melhora de desempenho natural de novas versões.

Então, diante disso, o IBM trouxe uma versão mais atualizada do projeto Deep Blue que finalmente conseguiu derrotar Kasparov com um placar final de 3½–2½.

O mais interessante em relação ao confronto é que na primeira partida do segundo confronto, Kasparov foi vitorioso. Mas um movimento aleatório feito pelo Deep Blue na jogada 44 lhe chamou a atenção pela total falta de sentido. Ele tinha a capacidade mental de calcular pelo menos 15 movimentos a frente na partida.

Por isso, não viu nenhum sentido no movimento que mais se assemelhava a um movimento furtivo que estratégico, lembrando um comportamento humano. Logo, isso lhe provocou um certo desequilíbrio emocional no restante do match o que possivelmente acabou lhe roubando a vitória.

Logo após a derrota, Kasparov disse que observou criatividade e inteligência nos movimentos que a máquina realizou e sugeriu ter havido ação humana nos movimentos, o que seria contra as regras do desafio. A IBM negou a trapaça, o enxadrista derrotado pediu uma revanche, que foi recusada. Com ela, também, o Deep Blue foi aposentado.

Posteriormente acabou-se descobrindo que o tal movimento aleatório foi fruto de um “bug” na programação do software da IBM. Sem nenhuma relação com qualquer fraude como Kasparov havia relatado na época. Conforme descreve o documentário “The man vs The machine” de 2004(1).

O que essa história que ocorreu no fim do século XX, tem a ver com os avanços  de inteligência artificial na medicina?

 

Um artigo recente publicado pela Annals of Oncology, Holger Haenssle e colaboradores(2). Comparou o desempenho do diagnóstico de uma rede neural convolucional de aprendizagem profunda para reconhecimento de melanoma através de dermatoscopia, em relação a 58 dermatologistas.

A conclusão final do estudo mostrou que, pela primeira vez, o desempenho diagnóstico de redes neurais convolucionais de aprendizagem profunda (CNN) superou o desempenho de um grande grupo internacional formado pelos 58 dermatologistas.

O que deveria ser uma ótima notícia para toda a comunidade médica,  foi recebida com medo do desconhecido e com questionamentos sobre como isso poderia impactar negativamente a carreira médica.

Na realidade, não existe nenhum sentido ter medo da evolução tecnológica nos processos de diagnósticos e tratamentos da medicina. Principalmente, por achar que o espaço de atuação dos médicos vai ficar limitado ou poderá ser substituído.

A história já mostrou ao longo dos anos, que qualquer tipo de avanços tecnológicos que minimizem erros, sejam escaláveis e beneficiem a sociedade como um todo, vão invariavelmente serem adotados. E por consequência, alguns empregos relacionados a essa evolução serão diminuídos, modificados ou até mesmo extintos.

If everyone is moving forward together, then success takes care of itself. – Henry Ford

Quando Henry Ford implementou o sistema de linha montagem em série para automóveis. Ele   transformou todo o segmento de transportes e  foi o responsável pela aposentadoria de muitos cocheiros. Essa inovação fez com que as pessoas buscassem outras oportunidades e assumissem novas habilidades dentro do mercado.

Imagine nos dias de hoje. Será que você gostaria de estar utilizando uma charrete, porque alguém ficou preocupado com os empregos que seriam perdidos pelo impacto de sua ação? Creio que não, por isso Henry Ford estava certo ao iniciar uma série de mudanças.

Se você analisar mudanças anteriores a essa, quando Thomas Edison criou a primeira lâmpada elétrica. Houve toda uma adaptação da sociedade para suportar um sistema completo com distribuição de luz, incluindo motores, condutores subterrâneos, entre outros aparatos.

Se ele tivesse pensado que tiraria a funcionalidade da lamparina, o trabalho de quem vendia o óleo utilizado nela e as jornadas dos acendedores de lamparina noturnos, muitas coisas que temos hoje em dia não teriam sido desenvolvidas.

2. A tecnologia nos liberta do repetitivo para que possamos nos dedicar ao humano

Ao unir grandes avanços tecnológicos simples ou complexos podemos chegar a uma resposta fácil para a pergunta: será que as atuações dos médicos serão prejudicadas com os avanços tecnológicos ou esses avanços só nos beneficiam?

Em um recente artigo do The Washington Post entitutado “Forget ‘man vs. machine.’ When doctors compete with artificial intelligence, patients lose.”(3). Caroline Nelson, Carrie Kovarik e John Barbieri alertam que de nenhuma forma avanços tecnológicos como machine learning e inteligência artificial podem ser vistos como competidores dos médicos. Mas sim como ferramentas de trabalho para facilitar o processo de diagnóstico e tratamento.

Com certeza, você não consegue se imaginar voltando a noite do trabalho para casa andando de charrete com uma lamparina em mãos, correto? Os pioneiros dos séculos atrás foram essenciais para que os avanços tecnológicos fossem possíveis e assimilados nos dias de hoje.

As inovações tecnológicas utilizadas na medicina as quais chamamos de health tech, estão totalmente ligadas a melhores condições de diagnósticos e processos iniciais do contato com o paciente.

Technology is teaching us to be human again. – Simon Mainwaring

Eu como médico quero ter a certeza de poder contar com todos os recursos tecnológicos possíveis, a fim de minimizar minhas chances de erro e maximizar minha capacidade de oferecer o melhor tratamento para o meu paciente.

Nós devemos nos preocupar em buscar o melhor tratamento e as relações humanas, enquanto isso, a máquina se preocupa em oferecer a precisão no diagnóstico. Já, o nosso paciente pode ficar tranquilo, pois a união de duas frentes: homem e máquina, poderá trazer resultados ainda melhores.

O objetivo é que haja uma simbiose entre o trabalho diário médico com a máquina, nesse caso, podendo ser tanto computadores quanto gadgets, wearables, aplicativos e tantas outras inúmeras aplicações.

Toda disrupção gera algum tipo de desconforto para quem está na inércia do cotidiano. Não devemos ter medo dos avanços tecnológicos, pois vieram para mudar e melhorar a nossa vida, devemos abraçar cada oportunidade de melhora.

Nunca foi tão real os benefícios das tecnologias exponenciais para a medicina e o mundo.É primordial que médicos e pacientes se interessem em saber cada dia mais sobre os avanços em Health Tech para as mais diversas aplicabilidades das tecnologias exponenciais no nosso dia a dia.

3. Um mundo de possibilidades.

“Today, if you’re not disrupting yourself, someone else is; your fate is to be either the disrupter or the disrupted. There is no middle ground.” ― Salim IsmailExponential Organizations: Why new organizations are ten times better, faster, and cheaper than yours

No livro “Oportunidades Exponenciais”(4)Peter H. Diamandis desenvolveu um modelo chamado ” 6 Ds dos exponenciais” : digitalização, decepção (crescimentos disfarçado), disrupção, desmonetarização, desmaterialização e democratização.

https://more.su.org/10xgrowth

De acordo com essa visão , a inteligência artificial e machine learning na medicina estão hoje em um estágio de disrupção entrando no processo de desmonetarização e desmaterialização. Quando finalmente poderá ser considerado uma tecnologia democratizada.

Para ilustrar esse cenário vamos utilizar o estudo realizado com o software de diagnóstico para melanoma que discutimos nesse artigo.

Imagine se você quisesse avaliar uma mancha suspeita no seu corpo (necessidade) e pudesse utilizar  o seu próprio smartphone com câmera de alta resolução (desmaterialização)!! Depois disso você enviaria a foto por meio de um aplicativo hospedado na Apple ou Google Store (plataforma) e assim, utilizaria o poder de computação infinita (disrupção). Então, isto possibilitaria a análise em segundos dos dados e devolveria um provável diagnóstico com alta taxa de acurácia para qualquer pessoa leiga do mundo (democratização).

Quantos pacientes acometidos por melanoma poderiam ter seu tratamento precoce e se beneficiar da diminuição das taxas de metástases e evoluções desastrosas dessa doença tão grave.

Os médicos poderiam oferecer os melhores tratamentos de forma extremamente precoce e efetiva. A OMS(Organização Mundial de Saúde) desenvolveria campanhas mundiais estimulando que as pessoas realizassem seu auto exame. Com isso, uma grande base de dados mundial poderia determinar quais as regiões geográficas têm maior incidência de melanoma com altíssimo acurácia e quais políticas públicas poderiam ser implementadas.

Em suma, quantos milhões de dólares poderiam ser economizados em diagnóstico?Quantos poderiam ser reaproveitados para tratamentos e melhora de qualidade de vida das pessoas?

Se você entendeu meu ponto de vista me ajude a promover aceitação desse mundo novo onde os avanços tecnológicos vão mudar não só a medicina e nossa atividade como médicos. Mas a nossa vida como seres humanos e isso é Fantástico :).

 

Esse artigo é parte integrante do livro de autoria do Dr. David Sena. “O que médicos e empreendedores têm em comum” que está em processo de produção. O texto na íntegra pode ser conferido no Linkedin.

Referências:

1. “Signals: The Man vs. The Machine”. espn.go.com. ESPN. Retrieved 2014-10-24.
2. H A Haenssle, C Fink, R Schneiderbauer, F Toberer, T Buhl, A Blum, A Kalloo, A Ben Hadj Hassen, L Thomas, A Enk, L Uhlmann, Reader study level-I and level-II Groups; Man against machine: diagnostic performance of a deep learning convolutional neural network for dermoscopic melanoma recognition in comparison to 58 dermatologists, Annals of Oncologyhttps://doi.org/10.1093/annonc/mdy166
3. – https://www.washingtonpost.com/news/grade-point/wp/2018/06/12/forget-man-vs-machine-when-doctors-compete-with-artificial-intelligence-patients-lose/?noredirect=on&utm_term=.b4508d52f1c5
4. Diamandis, Peter H. Oportunidades exponenciais: um manual prático para transformar os maiores problemas do mundo nas maiores oportunidades de negócios… / Peter H Diamonds e Steven Kotler; tradução de Ivo Korytowski. – São Paulo: HSM do Brasil, 2016.

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O evento acontece dia 5 de outubro a partir das 13h no Teatro do Prédio 40 na PUCRS em Porto Alegre.
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